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Palavras do português que não existem em inglês

Saudade, cafuné, friorento, madrugada, gambiarra. Palavras sem tradução em inglês, o que falantes de inglês fazem quando precisam dizer a mesma coisa, e por que isso trava a sua fala.

11 de out. de 2026 · 7 min de leitura

Todo brasileiro que estuda inglês passa pelo mesmo momento: precisa dizer uma coisa simples, procura a palavra, e descobre que ela não existe. Não é que você não sabe. É que o inglês não tem.

Idiomas não são listas paralelas de palavras com etiquetas diferentes. Cada um escolheu o que valia a pena resumir numa palavra só, e essas escolhas não coincidem. Quando o português resolveu criar "anteontem", o inglês ficou com quatro palavras para a mesma ideia e seguiu a vida.

Abaixo estão as palavras sem tradução em inglês mais conhecidas, com o que os falantes de inglês realmente dizem quando precisam da mesma ideia.

Saudade

A mais famosa, e a que mais gera exagero. Existe uma versão romântica dessa história que diz que só o português consegue expressar esse sentimento, o que não é verdade: sentir falta é universal.

O que o português tem de diferente é a forma gramatical. "Saudade" é um substantivo, uma coisa que você tem. Em inglês o mesmo conteúdo só existe como verbo: I miss you. Dá para dizer longing, que é um anseio mais literário, ou nostalgia, que puxa para o passado e não serve para saudade de alguém que está vivo e longe.

Então o falante de inglês diz I miss you e resolve o problema prático. O que ele não tem é o jeito de dizer "estou com saudade" sem apontar o alvo.

Cafuné

Passar os dedos no cabelo de alguém, devagar, com carinho. O inglês descreve o gesto inteiro: running my fingers through your hair, ou playing with someone's hair.

É um bom exemplo de como as lacunas funcionam. A ação existe nos dois lugares e a ternura também. O português só achou o gesto importante o bastante para ganhar nome próprio.

Calorento e friorento

Essas duas doem, porque aparecem em conversa banal toda hora. Quem sente frio com facilidade e quem sente calor com facilidade.

O inglês resolve com frase: I get cold easily, I'm always cold, I can't handle the heat. Existe cold-natured e hot-natured, mas é uso regional e muita gente não usa. Não espere encaixar um adjetivo e seguir: você vai ter que montar a frase.

Anteontem

"The day before yesterday". Quatro palavras para o que o português diz em uma, e o mesmo vale para "depois de amanhã" (the day after tomorrow), que em português já tem três.

Curiosamente, nessa família o inglês tem a palavra mais econômica para outra coisa: fortnight, duas semanas, que o português não resume.

Madrugada

Aquela faixa entre a meia-noite e o amanhecer tem nome em português e não tem em inglês. As opções são the small hours, the early hours, the middle of the night, dawn quando já está clareando, ou simplesmente dizer a hora.

"Cheguei de madrugada" costuma sair como I got home at like three in the morning. Repare que o inglês não resolve com um substantivo, resolve dizendo o horário.

Xodó

Carinho e preferência na mesma palavra, e com um tom afetuoso que atravessa o uso: pode ser pessoa, pode ser o carro velho da garagem. Sweetheart cobre a pessoa. Soft spot cobre a preferência (I have a soft spot for him). Pet funciona para o favorito de um grupo, com conotação que nem sempre é boa.

Nenhuma das três carrega as duas ideias juntas do mesmo jeito.

Desenrascar e gambiarra

Essas duas andam coladas e são as que mais revelam cultura.

Desenrascar é se livrar de um problema com o que estiver na mão. O inglês chega perto com to wing it (fazer sem preparo), to muddle through (ir levando mal e porcamente) e to figure it out. Nenhuma tem a nuance de ter saído de um aperto por engenhosidade.

Gambiarra é o resultado disso aplicado a objeto ou sistema. O inglês tem workaround, que é neutro e técnico, jury-rigged e jerry-rigged, para o que foi montado às pressas, e kludge, que é jargão de programador. Em inglês britânico existe bodge, bem perto.

A diferença é de afeto. Gambiarra em português costuma vir com orgulho. Kludge vem com vergonha.

Caprichar

Fazer com cuidado extra, acima do necessário, porque você quis. O inglês diz put extra care into it, do it properly, go the extra mile, mas é tudo expressão de várias palavras.

É por isso que "capricha no desenho" é tão difícil de traduzir sem soar como ordem de chefe.

Apaixonar-se

O português tem um verbo único para o momento em que o sentimento começa: apaixonar-se. O inglês precisa de três palavras, to fall in love, e usa o verbo "cair" justamente porque não tem um verbo próprio para isso.

A distinção que o inglês faz bem é outra: I'm in love (estou amando) é diferente de I love you (eu te amo), e brasileiro erra isso com frequência. Já a diferença entre "gostar" e "amar" o inglês embrulha num só love, e por isso um americano diz I love this restaurant sem nenhum peso.

Açougue, padaria e o resto

Essa categoria é menos emocional e mais prática. O português resume o estabelecimento em uma palavra; o inglês monta composto.

  • Açougue é butcher shop ou butcher's. Butcher sozinho é a pessoa.
  • Churrasco é barbecue, que serve, mas descreve um evento diferente.
  • Puxadinho não tem palavra: extension, add-on room, lean-to.
  • Jeitinho não tem palavra nenhuma, e normalmente vira explicação de duas frases.

O caminho inverso

A lista de palavras sem tradução em inglês tem uma gêmea do outro lado, e notar isso é mais útil do que parece, porque são palavras que você vai precisar entender em conversa.

Commute é o trajeto diário entre casa e trabalho. Em português é "deslocamento" ou a frase inteira, e vira verbo também: I commute two hours a day.

Sibling é irmão ou irmã sem dizer o sexo. Português não tem, e em formulário isso incomoda.

Accountability é responsabilidade com a ideia de prestar contas pelo resultado. "Responsabilidade" cobre metade.

Overwhelmed é o estado de estar soterrado por demanda ou emoção. "Sobrecarregado" pega a parte do trabalho e perde a parte emocional.

Crush já entrou no português falado justamente porque "paixãozinha" não resolve.

To look forward to é esperar algo com expectativa boa. Em português você diz "estou ansioso", que carrega ansiedade, ou "não espero a hora", que é outra coisa.

Insight e spoiler foram importados direto, porque a alternativa era explicar.

Por que isso importa para a sua fala

Essa não é só uma lista curiosa. Palavras sem tradução em inglês são a causa direta de um travamento muito comum na conversa.

O que acontece é sempre a mesma sequência: você monta a frase em português na cabeça, chega na palavra que não tem equivalente, e para. Fica procurando uma peça que não existe, o silêncio se estica, e a conversa esfria enquanto você tenta lembrar de uma tradução que ninguém nunca escreveu.

A saída é inverter a ordem. Em vez de traduzir a palavra, descreva a ideia. "Sou friorento" não tem versão curta, mas I get cold really easily sai na hora e o outro entende perfeitamente. Quem fala bem um segundo idioma não tem um dicionário maior: tem o hábito de contornar rápido.

Dois movimentos práticos a partir disso:

Aprenda a lacuna junto com a palavra. Quando descobrir que algo não tem tradução, decore a frase que resolve, não a palavra que falta. I get cold easily vale mais que a busca eterna por "friorento em inglês".

Monte seu kit de contorno. It's like..., it's kind of a..., we have a word for..., how do you say when.... Essas quatro estruturas destravam quase qualquer lacuna, e você pode até ganhar uma conversa inteira explicando o que é gambiarra.

E vale saber que o inverso também vai acontecer: várias gírias em inglês não têm versão curta em português, e você vai contorná-las do mesmo jeito, descrevendo em vez de traduzindo.

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